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Quinta de Santo António

Ameixoeira

A Quinta de Santo António está integrada no Inventário Municipal do Património, do Plano Director Municipal de Lisboa, e inserida no núcleo histórico da Ameixoeira, tendo sido vandalizada enquanto não esteve habitada. Actualmente decorre um pedido de restauro e loteamento que não afecta o jardim e dele tira partido como jardim romântico do século XIX. Por um portão rasgado no muro e coroado por um frontão onde se inscreve um registo de azulejo representando Santo António, datado de 1865, faz-se o acesso ao pátio de entrada da Quinta de Santo António, de planta rectangular, pavimentado com calçada preta e branca com desenhos em raio partindo do centro. Neste centro encontrava-se uma mesa, como elemento ornamental e definidor de uma geometria, completada por dois lances de escadas que descem de um pequeno patamar, delimitando o pátio e permitindo o acesso ao jardim que se lhe segue. Num plano acima, ao centro do muro de suporte que o circunscreve, está um pequeno nicho de embrechados, por onde escorre água, enriquecendo este primeiro espaço. A casa, com características de habitação suburbana e de recreio, é o produto de uma edificação rural sucessivamente transformada e acrescentada. São estas transformações, bem como a sua simplicidade construtiva de base e a ausência de uma tipologia arquitectónica específica, que dificultam a sua datação. Com possíveis origens no século XVII, a casa foi percorrendo os anos nas mãos de diferentes proprietários. Da sua história destacam-se as profundas obras realizadas no século XIX, terminadas em 1865, cujos arranjos exteriores deram à fachada virada para a rua um aspecto mais cuidado, contrastando com a simplicidade das restantes fachadas, e as realizadas entre 1935 e 1942, profundas obras de restauro das quais constam o revestimento a azulejo num padrão estampilhado de cor verde-azulado, em dois tons, produzido pela Fábrica Viúva Lamego. As fachadas internas foram também revestidas com azulejo estampilhado de padrão crochet. A limitar o patamar superior do jardim existiu um gradeamento e uma pérgula em ferro, assentes sobre pilares, que foram descobertos dentro da cisterna durante este restauro. Neste patamar inicia-se um jardim de sombra romântico, típico do século XIX, com planta em «L», com fonte de embrechados e lagos, um deles de forma irregular, que antecede o portão que permite o acesso à Rua Direita da Ameixoeira, sendo este o espaço patrimonial do jardim. O muro perpendicular, revestido por uma cascata integralmente preenchida por pedras encastradas, com um mascarão ao centro e algumas pequenas bacias pelas quais a água escorre, e onde cresciam avencas formando uma parede verde, foi, segundo Luís António F. de Castro, objecto de reparo pelo príncipe D. Luís Filipe. Junto a esta cascata também existe uma pérgula em ferro. No muro que limita, a nordeste, o jardim volta a surgir um nicho de embrechados, de maiores dimensões, por onde a água escorre entre conchas (tridacnas) sequencialmente de maiores dimensões. No acesso para um outro pátio murado, encontram-se o poço e a cisterna com um débito e uma água fresca que garantem a alimentação dos antigos sistemas hidráulicos e de rega de todo o jardim romântico, agora restaurados, onde as nespereiras criam sombra e as águas correm das fontes. O espaço mais amplo da quinta é o antigo pomar, ao qual se acede por uma abertura numa parede perto do pátio murado de onde parte um caminho principal, em terra, que, segundo o levantamento topográfico de Lisboa, de J. A. Vieira da Silva Pinto de 1904-1911, era ladeado por canteiros de buxo preenchidos por plantas. No centro, o jardim era dominado por uma grande araucária. Existe ainda um lago octogonal com um pequeno repuxo central com revestimento a imitar rocha junto do limite noroeste. Neste limite o muro era interrompido por um gradeamento que servia de miradouro, pois de todo o muro se têm largas vistas sobre o vale de Carriche e toda a paisagem das encostas de Loures. Neste jardim existe ainda um pombal de planta circular que não foi objecto de restauro e as ruínas das pocilgas e capoeiras poderão vir a ser a área de construção moderna do condomínio sem afectar o jardim romântico. Após análise e pesquisa histórica sobre a quinta, que se insere no conjunto de quintas que há muito se implantaram na Ameixoeira graças à disponibilidade de água e às vistas que daqui se gozam, foi feita uma prospecção do sistema hidráulico existente para posteriormente se proceder ao projecto de restauro. Na referida prospecção identificaram-se: uma cisterna sob o pátio da entrada para a qual escorriam as águas de drenagem do pavimento e dos telhados; uma mina com duas galerias localizada no poço, com 25 metros de profundidade, que se encontra no pátio murado. Com débito permanente, mesmo em Agosto, a mina tem uma altura que varia entre os 1,5 e os 3 metros, e uma extensão superior a 50 metros com uma derivação de aproximadamente 10 metros, sendo que no Verão apenas uma das galerias tem água. A entrada para a mina está habitualmente submersa pela grande quantidade de água que este poço recebe todo o ano, sendo este o elemento que alimenta todo o sistema hidráulico. A decisão de intervenção recaiu no reforço dos muros para reduzir os assaltos e vandalismo; na recuperação e limpeza do poço e da cisterna, que se encontravam repletos de lixo; e na recuperação da água do poço para poder alimentar as fontes e lagos do jardim do século XIX, deixando a instalação de um anel para rega ligado ao poço para o jardim poder ser regado depois das obras do loteamento. No projecto de restauro foi proposta a instalação de uma bomba submersível no poço para elevar a água até a um balão hidropressor instalado na cisterna existente na sua proximidade, partindo desta uma conduta subterrânea em PEAD de 50milímetros de diâmetro, que distribui a água pelo lago, cascata, os dois nichos de embrechados e o anel de rega com cinco caixas de distribuição colocadas para futura instalação do sistema de rega. Estas caixas estão ainda munidas de um ponto eléctrico preparado para a instalação definitiva com electroválvulas. Em todas estas estruturas ornamentais do sistema hidráulico foi instalado um descarregador de superfície que permite o encaminhamento da água de novo para o poço e consequente recirculação, com excepção do nicho de embrechados do pátio da entrada que descarrega para a cisterna adjacente.
Ficha Técnica - Arquitectos Paisagistas

Coordenação de Projecto:
Cristina Castel-Branco

Assistência de Projecto:
Bernardo de Magalhães e Menezes

Área: 5000 m2

Estado: Construído

Cliente:
Ameixoeira S.A.

Data: 2010

Observações: Hidráulica a cargo de João Ribeiro